sábado, 8 de novembro de 2014

Trem

A pressa corre em estacato
Sem ligar uma nota a outra
Faz meus dedilhados parecerem 
Tontos, perdidos, atrasados.

Até cada universo se unir
Debaixo de nossas unhas,
Então me leve...
Só existe essa maneira de me hipnotizar,
Me fazer entrar no trem:
Pelo ouvido.

Lá reverberou uma melodia interna 
Imensa, onipresente.
Aquela que está presente 
Inclusive no silêncio.
O tempo todo.

E é na penumbra do harmônico,
Na sua quase transparência 
Que nos encontramos.

Por um instante pensei
Que a tivéssemos perdido,
Por um instante os universos 
Não se unem. 


(GB - 16)

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Contraditoriamente conforme

Você se cala e eu me falo.
Você é o meu calor escondido por trás
Do meu eu frio.
Vocé é o poema que rima com 
meu poema sem rimas.

Você é a pessoa que me irrita, me esfria 
Enquanto na verdade está me acalmando
E aquecendo meu gelo.
Tão próximo e tão distante, 
Você é o concreto do meu abstrato.

Vive para despertarme-me enquanto me entorpece.
Te quero o mais próximo possível de mim
Na maior distância que possa existir entre nós!

Você adimira tanto todas as minhas 
cores do mesmo tom de pálido, 
Isso me instiga, me dá raiva amando, 
Me sufoca carentemente.
Preciso daquele espaço entre o mais próximo de ti.

Te quero por não te querer.
Te queria por não me querer.
Ao mesmo tempo que te desejo, te rejeito.
É tão familiarmente previsível por eu conhecer-te há tanto,
Mas é um completo desconhecido pra mim.

Essa instabilidade estável
é tão confusamente monótona
Que me deixa descofortavelmente corfortável
Nessa sua paciência inquieta.

Tão parecido e tão distinto,
Você é o mais distante 
E o mais próximo do que desejo.
Você é o mais do meu eu menos,
Mas nessa equação, 
Mais com menos dá mais.

(GB - 16)


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Palavras

A garota, com pressa para não perder a curva de seu pensamento criativo que sempre se esvai com facilidade, foi pegar no estreito armário a sua máquina de escrever, e datilografar nela o que levou anos para lhe ocorrer e que lhe veio tão naturalmente naquela noite: as palavras que descrevem o significado de todas as coisas. 

Escreveu tão rápido para não se esquecer das palavras valiosas que só olhava para seus dedos forçando freneticamente as teclas e quando sentiu que ia chegar no fim do papel e foi puxar a alavanca para trazer de volta, percebeu que havia esquecido de colocar papel na máquina. As palavras instantaneamente voarem longe, tão suave quanto uma pena, tão naturalmente como chegaram e se deitaram em sua cabeça minutos atrás. 

Desesperada tentou ver se as letras ficaram marcadas no suporte do papel para poder ler, forçou a vista para ver se pelo menos uma letra tinha ficado gravada ali e assim recuperar as palavras, mas não conseguiu pois o suporte era preto assim como a tinta, escuro assim como sua mente agora vazia. Preto sobre preto igual a nada. Por que isso tinha que acontecer com ela? Por que as palavras se camuflaram para se esconder dela? Justo ela, a garota que era apaixonada, formada e completa inteiramente pelas palavras... e sempre traída por elas. 

A máquina, que para a garota tem o maior dom de todos (motivo pelo qual a menina tinha inveja) tem todas as suas engrenagens, seu metal frio, a fita, as teclas feitas especialmente para ultilizar desse dom: o dom de ter todas as palavras a seu dispor em todos os momentos, formar palavras, transmitir a linguagem, também ela, a máquina, a traiu. Com tudo isso que ela pode fazer, com esse poder de ter o mundo inteiro e todas as coisas em suas mãos (ou melhor, em suas teclas), por que não avisou a garota faltava o componente essencial: um pedaço em branco para, no contraste, revelar as palavras feitas pelo negro da tinta e só assim funcionar perfeitamente? Por que não lhe avisou que sem a devida preparação e atenção para o instrumento, ele se torna inútil? 

Na verdade ela tentou avisar (não iria trair a menina das palavras dessa maneira) mas não soube como, faltou-lhe as palavras. 

(GB - 16)

quinta-feira, 13 de março de 2014

Contratempo

Correndo contra o tempo eu saio daqui
Para encontrar a mim mesma do outro lado
Assim...
Correndo contra o tempo eu saio daqui
Para encontrar respostas sobre tudo
Enfim:

O porquê da solidão, o poder do sim e do não,
O que sou, onde estou
E como se faz a felicidade.
Como se encontra a liberdade,
Se todos somos prisioneiros de si?

Como é feito o tempo?
De onde veio o vento?
Como é ser correto?
O que é concreto,
Num viver incerto?

Como trazer de volta o que nos faz sentir,
O que nos faz ver,
O que nos faz ser?

Como trazer de volta o que nos faz sorrir,
O que nos faz feliz,
O que nos faz viver?

(GB - 15) http://www.youtube.com/watch?v=2Pzz7JlAayE

Assim Ser

Você que me vê assim,
Tão eu,
Tanta gente em uma só...

Nós?
Nossa essência é uma mistura
de pessoas, sentimentos, sentidos.


Sou um pouco da poesia
E boemia de minha mãe,
Mas peguei um pouco do hard 
Do rock de meu pai.

Sou um vazio cheio de coisas,
Um grande poema sem rimas como este.
Sou abstrata,
Mas sei me comportar como concreta.

Assim como todos,
Assim como a lua,
Tenho meu lado escuro

E meus próprios segredos.

Posso ser misteriosa
Como um gato,
Mas queria ter a liberdade
De um passarinho.

Assim,
Sendo gato e passarinho,
Tento perseguir a liberdade dentro de mim
Que muitas vezes voa longe
Por sua própria liberdade.

Queria que tudo fosse leve
Como uma pena
Inspirando o vento

E, assim, flutuando.

Assim
É
Ser
Sou


(GB - 14)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Velhice


Flores: secaram
Carinho dado: agora ficou apenas no olhar.
Cuidados dados: agora recebidos.
Barulho: aquietado.

Música: agora inexistente.
Voz: perdida, rouca, silenciada.
Presença: depois apenas a ausência.

Agora só restaram as lembranças 
De uma mente em uma cama
Apenas esperando...

(Giuly Biancato-13 anos) dedicado á tia-bisavó Maria.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Crepúsculo

Chegou o crepúsculo
Com aquele seu sentimento,
Aquela sensação de que esquecemos algo,
Uma falta de ar, um vazio no peito,
Vontade de se expressar, mas parece que
Estamos sozinhos no mundo.



De repente aparecem as lágrimas... 
Uma de cada vez
Junto com o grito rouco de desespero.Começa a tocar uma música
E mesmo sendo uma música sem sentido,
Parece que ela está nos provocando,
Apareceu no momento certo.

Então vem as imagens... 
Imagens de coisas passadas,
Retrasadas.
Imagens que nunca presenciamos
Ou que presenciamos
E sempre dói lembrar.
Aumenta ainda mais o buraco no peito,
O medo.

De repente a noite chega,
O crepúsculo chegou ao fim
E tudo volta ao normal.

(GB -12)