quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Carta de um violão

Passo meus dias tentando decifrar o código do nosso encontro e descobrir a fórmula para poder sempre reconstruir a balsa quando ela ameaçar apodrecer.

Seria o fogo do sol que aquece nossa pele ou o frio que nos aproxima? Seria o movimento das ondas ao vento ou seria ou tato que sente o outro ao lado?

Será a música que nos guia para a costa?
É sempre o som que vai construindo em passos, e a cada passo entro e mergulho.

Como no sino, o vento conduz a melodia. O vento que se abriga em nossa inspiração e que move a vela na vastidão negra do mar. Nesta casa você já esteve, pois na história já está escrito, como o entalhe que você me fez, em códigos tão profundos não estabelecidos em apenas uma jornada.

Nunca se esqueça que você pode construir minhas curvas em madeira e som, que no oco desta casa você pode se encontrar e se abrigar da tempestade.


(GB - 17)

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Circo Social

A essência anda disfarçada de banal.
Só se vê a luz quando está escuro,
Só se vê quem limpa quando está sujo,
Só sentimos o monstro quando está tudo vazio. 
A tinta só pinta um grande monótono.
A falta de fluxo pelo controle remoto.

Nem um átomo de fé te faria completo.
Se força um riso amarelo com tal besteira.
Usando o superficial para atingir e não cair,
Fez do belo tamanho absurdo.
Não se enxerga o que está surgindo.

A decadência gera hipocrisia,
A hipocrisia alimenta a moda,
A moda cria a depressão,
O que não falta é quem tenha razão.

No mesmo circuito os olhos caminham parados,
A mente funcionando por mecanismo programado,
O mundo girando por embalo, por abalos.
Sempre reto, sempre o círculo, sempre o ciclo do quadrado.

Nada mais importa quando seu ego infla.
A loucura é que deveria ser ouvida,
Mas final das contas o certo é sempre impossível,
É o que não se pode,
É o que não se consegue fazer.

(GB - 17)

Sol

Os olhos que guiam meus pés,
As mãos que guiam minha pele,
Os dedos que me levam pra dançar,
A certeza que traz a segurança da realidade.

Aqui ou do outro lado há um sol
Que aquece meu mundo
Secando minha casa afundada por um rio.
Balança as decisões e coloca tudo no lugar.

A voz que me traz de volta, 
Um encontro que faz acontecer
No fogo que faz aquecer, 
Que penetra a pele.

Faz eu me sentir em casa,
O ninho onde posso pousar.
O improviso que guia o futuro,
O sorriso onde quero estar.

É de quem posso pegar meu brilho
Para a noite iluminar
E imaginar
Nosso encontro em outro lugar.

(GB - 17)

Lágrima

Como mancha vem marcando a pele... 
O sal. 
Em brilho, espalha o cinza. 
Insegura se balança tentando voltar de onde veio, 
Mas tímida cai e se deita sobre os poros 
Procurando não ser vista. 

Desmascara ou conquista, 
Nunca sabe como será recebida: 
Se entre dentes ou soluços. 

Sabe que se cair, 
Acaba puxando a corda e então 
Outras cairão da ponte 
Tentando segui-la em direção ao mar. 

Exploram o mar, 
Procuram um lugar para se agarrarem 
E depois flutuarem.

(GB - 17)

Vassouras e Olhares

O ônibus para, sol forte no céu. Ao lado direito, de frente pra janela do assento, um varredor de rua com sua roupa laranjada e pesada grudando em seu corpo suado.

Com seu olhar enrugado, indiferente e distraído, demonstra estar acostumado com a rotina, acostumado com sua inexistência enquanto as pessoas passeiam pelo parque que é limpo por ele. O que ele não sabe é que seu olhar carrega tanta poesia, poesias tão tristes quanto sua vassoura fazendo melodia pelo chão enquanto levanta a grama cortada.

Cheiros e rostos, gramas e sois. Horas e horas, dias e dias... Até que ele percebe um olhar sobre ele, coração acelera e de vagar levanta seu rosto para retribuir o olhar ainda com certo medo e hesitação. Mas o ônibus anda e ele não conseguiu ver quem o olhava... Novamente é apenas ele e ele. Ele e sua vassoura musical.

(GB - 17)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Passarela Cinzenta

Em um dia frio com cheiro de cinzas, uma mulher riu-se no encontro com o trem.

Na neblina invernal com cheiro de manhã, um resquício de modelo se desequilibrou encontrando o trem.

No trilho frio, ferrugem de morte, o trem riu-se de encontro às cinzas.

No trem invernal com cheiro de cinzas, a neblina encontrou com o resquício da modelo.

Em uma manhã de neblina com cheiro de inverno, a morte equilibrou-se no encontro com o trilho.

Em uma manhã cinza com cheiro de morte, ela andou de encontro ao trem.

A manhã cinza condizia com o cheiro de morte daquele dia invernal, infernal. Acabava de amanhecer,  neblina, um resquício, um rastro de lua no céu. E lá ia ela se equilibrando, andando pelo trilho enferrujado: uma modelo na passarela. Rindo-se à toa. Nunca pensou que ela poderia se tornar modelo como essas da televisão. Se desequilibrou no exato local onde o trilho virava uma ponte. A visão, turva como a neblina. A última coisa que conseguiu distinguir foi o trem...e o resquício da lua no céu.

(GB - 16)


sábado, 8 de novembro de 2014

Trem

A pressa corre em estacato
Sem ligar uma nota a outra
Faz meus dedilhados parecerem 
Tontos, perdidos, atrasados.

Até cada universo se unir
Debaixo de nossas unhas,
Então me leve...
Só existe essa maneira de me hipnotizar,
Me fazer entrar no trem:
Pelo ouvido.

Lá reverberou uma melodia interna 
Imensa, onipresente.
Aquela que está presente 
Inclusive no silêncio.
O tempo todo.

E é na penumbra do harmônico,
Na sua quase transparência 
Que nos encontramos.

Por um instante pensei
Que a tivéssemos perdido,
Por um instante os universos 
Não se unem. 


(GB - 16)